quinta-feira, 20 de agosto de 2009

APALPANDO O ELEFANTE

Reginaldo de Oliveira
E-mail - reginaldo@reginaldo.cnt.br
Publicado no Jornal do Commercio em 20/08/2009 – Manaus/AM - Pag. A3
www.artigo23.rg3.net

A um grupo de cegos foi incumbida a tarefa de identificar um objeto e cada um tinha somente três segundos para fazer isso. Após a sessão de rápida apalpação o primeiro voluntário descreveu uma grossa mangueira de calibre menor na ponta e dois furos na extremidade. O segundo destacou ter tocado em uma forte coluna. O seguinte relatou que se tratava de um animal com um chifre imenso. Outro participante da experiência mencionou algo que lembrava uma parede de textura áspera e o último reclamou que estava havendo exagero, visto ter percebido um objeto que lembrava um chicote. Cada cego traduziu o elefante levando em conta a particular limitação da sua percepção do mundo. Ou seja, os dados que acessaram eram muito limitados e não foi dada a eles a oportunidade de explorar por completo o objeto de estudo. Assim, cada qual estabeleceu em sua mente um juízo e um paradigma, sendo que o conceito perduraria enquanto não houvesse uma nova oportunidade para corrigir o equívoco.

Algo semelhante acontece no ambiente organizacional, principalmente quando se trata de uma grande e complexa estrutura. Caso fosse feito um estudo aprofundado com cada empregado sobre a imagem que tem da empresa que trabalha, surgiria uma grande variedade de visões e interpretações, sendo que muitas delas surpreenderiam os membros da alta direção. Esse é um fenômeno recorrente nos ambientes organizacionais, fruto das deficiências de gerenciamento dos seus recursos humanos e até crise de identidade da empresa.

A empresa é um ente detentor de personalidade e sua idiossincrasia a distingue das demais organizações – nenhuma empresa é igual a outra. Ela é resultado de uma série de variáveis que passaram por um complexo processo de catalisação de opiniões, valores, conceitos até se consubstanciar naquilo que se conhece como cultura organizacional. O grande problema é que todo esse processo pode acontecer sem gerenciamento e sem controle. Ou seja, a administração competente nunca se dispõe a fazer um exercício de introspecção com o intuito de refletir sobre o que ela é, o que quer ser, o que faz, o que quer fazer, para onde quer ir e de que forma. Deixando essas questões ao léu, um belo dia o dono não reconhecerá aquilo que achava ser sua empresa e que deveria ter a sua cara. Os exercícios de implantação de programas de qualidade possuem a virtude de provocar tais reflexões, levando a empresa a se situar em termos de objetivos e valores, definindo sua missão e visão, e comunicando tudo isso aos seus públicos interno e externo.

Cada empregado ao ser admitido precisa tomar conhecimento dos valores do seu novo ambiente de trabalho. Necessita também saber do seu papel da organização, o que dele é esperado, quais são as recompensas; além de várias informações importantes sobre o que fabrica, para quem vende, posição no mercado, hierarquia, horários, regulamentos, procedimentos etc. A falta de visão sistêmica (onde o organismo empresarial é tido como um grande corpo com vários órgãos, fluxos, subsistemas e processos) pode ser comparada a inexistência de monitoramento de uma máquina onde uma engrenagem aqui e outra ali pode estar com um desgaste ou falha que compromete o funcionamento de todas as outras peças. Consequentemente, a coisa começa a se arrastar ou consumir muito mais energia para obter o mesmo resultado. Da mesma forma que um trabalho de manutenção visa identificar e corrigir uma peça defeituosa, também a iniciativa voltada para a gestão de processos e informações pode identificar entraves, gargalos e deficiências que, corrigidas, promovem a desobstrução dos fluxos normais de trabalho.

A mudança depende de uma ação administrativa. Uma empresa que consiga fazer um bom trabalho com cada um dos seus empregados, será recompensada com uma estrutura altamente produtiva. Uma força de trabalho que atua como um bloco uniforme é um ativo de alto valor no mercado, mesmo que ainda não se consiga mensurar o capital intelectual das organizações. Mas, com certeza, uma equipe de alta competência é o que diferencia uma empresa bem sucedida, visto que as variáveis tecnologia, mercado, acesso aos insumos e aos canais de distribuição já são questões de amplo domínio entre as organizações mais maduras. É preciso então ampliar as capacidades intelectuais, perceptivas e produtivas dos funcionários e isso só se consegue com muito investimento em educação empresarial.

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