segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

UBER E O ICMS COMBUSTÍVEIS


Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  11 / 02 / 2020 - A388

A Procuradoria-Geral da República (PGR) emitiu dia 3 último um parecer favorável à libertação do ex-ministro Geddel Vieira Lima, o qual foi preso depois da Polícia Federal encontrar R$ 51 milhões no seu apartamento. O entendimento é de que o ex-ministro reúne as condições exigidas por lei para a progressão de regime por se enquadrar nas cláusulas 716 e 717 do STF.

Pois é. Precisamos entender uma coisa importante: O setor público é uma coisa só; um corpo único, uma entidade que se volta contra o particular. Os entes públicos sempre se protegem uns aos outros porque todos eles são alimentados pelo contribuinte. Ou seja, não existe distinção entre judiciário, legislativo, executivo, polícia, ministério público etc.; tudo é farinha do mesmo saco. Podemos compará-los a uma família mafiosa de infinitos irmãos, primos, tios, sobrinhos etc. O pai é o STF; a mãe é a PGR; os irmãos são parlamentares, prefeitos, governadores, ministros etc. E, obviamente, o pai tende a proteger seus filhos, assim como os demais parentes vão sempre estar em defesa dos familiares. Podemos comparar o pagador de impostos a uma gigantesca criação de porcos que recebem somente o necessário para se manterem vivos e assim produzir o alimento dos mafiosos. A dupla Sefaz/Receita Federal são os açougueiros que sangram gargantas para abastecer o erário.

O ministro Paulo Guedes chamou o funcionalismo de parasita que consome a arrecadação de impostos com uma máquina pública cara, ineficiente e corrupta. Na realidade, é pior do que isso. Na verdade, é um câncer que está corroendo as entranhas do Brasil, onde, logo, logo, todos vamos sucumbir, tal qual aconteceu nas contas públicas da Grécia.

O Brasil foi colonizado por exploradores que tinham como missão arrancar tudo que pudesse daqui e destinar o espólio à metrópole portuguesa. Esses personagens salteadores e suas respectivas índoles virulentas continuam vivíssimos nos seus descendentes, os quais, hoje, ocupam altos cargos no poder público. Eles continuam firmes na missão dos seus antepassados. Só, que, agora, esse pessoal arranca o couro dos pagadores de impostos para sustentar o luxo e a depravação da aristocracia pública. Os canais midiáticos mostram diariamente carradas e carradas de histórias escabrosas envolvendo desmandos, improbidades e uma roubalheira desenfreada de agentes públicos, sendo que, ao mesmo tempo, outras notícias dão conta de milhares de decisões judiciais que libertam corruptos de todos os quadrantes.

Como o Brasil é o paraíso da esperteza e dos esquemas espúrios, as pessoas ricas e poderosas decidiram não pagar imposto sobre suas rendas milionárias. Sendo assim, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1995, decidiu acabar com o imposto de renda sobre dividendos. Daí, pra frente, só os pobres pagam imposto de renda. A consequência disso é que o imposto de renda participa com somente 16% de tudo que arrecadamos atualmente (nos EUA, é mais de 50%). E, para cobrir o rombo orçamentário, foi preciso aumentar muito os tributos sobre consumo, principalmente aqueles que incidem sobre os combustíveis.

Os impostos dos combustíveis são um escândalo acintoso. Um vídeo que circula nas redes sociais (#AtualidadesPampa) mostra que somente o ICMS do Rio Grande do Sul é de 75% sobre o valor que sai da refinaria. Isso, sem contar Pis, Cofins e Cide.

A bagaceira escandalosa do preço dos combustíveis tem mobilizado os motoristas de aplicativos que não aguentam o aumento diário na bomba. Isso se deve ao custo elevado do serviço prestado em comparação aos valores das corridas. E como toda essa situação está sufocando a categoria profissional, eles resolveram botar a boca no trombone e dizer que o rei está nu. Os motoristas de aplicativos estão puxando a ponta dum novelo que traz consigo uma coleção de atrocidades abomináveis do poder público. A bizarra história do ICMS combustíveis está levando o cidadão a refletir sobre sua miserável condição que banca o luxo, a depravação e a roubalheira dos agentes públicos. Enquanto os motoristas de aplicativos lutam pela libertação do contribuinte escravizado pelos impostos, as outras pessoas se calam e se escondem como vermes na lama. Depois, esse pessoal covarde não pode reclamar quando é pisado pelos funcionários públicos. Curta e siga @doutorimposto
































terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O preço da gasolina e a reforma tributária



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  04 / 02 / 2020 - A387

Está pronto para ser votado na Comissão de Fiscalização e Controle o Projeto de Lei 990/2019, que estabelece o dever de o fornecedor informar o valor dos tributos incidentes sobre os produtos e serviços ao consumidor. A proposta do senador Randolfe Rodrigues altera o Código de Defesa do Consumidor para determinar que oferta e apresentação de produtos ou serviços apontem o preço sem o valor dos tributos embutidos (ICMS, IPI, Pis, Cofins, Cide, ISS), evidenciando assim na etiqueta o que é produto, o que é imposto e o valor total a ser pago. Tal informação é essencial para que o consumidor possa enxergar sua contribuição para o funcionamento dos serviços públicos, coisa que já acontece nos países membros da OCDE. Fonte: Agência Senado (27/01/2020).

A normatização brasileira em vigor obriga o comerciante a vender imposto como se fosse produto. Isso ocorre porque as etiquetas de preço não separam uma coisa da outra e assim a população em geral não sente na pele o tamanho da punhalada todas as vezes que gasta seu parco dinheirinho. O senador defende a ideia de que a explicitação da carga tributária estimulará o hábito de exigir nota fiscal para que o pacote de impostos pago seja de fato repassado ao erário.

Por exemplo, o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) aponta a carga de 56% de tributos embutidos no preço da gasolina, significando assim que numa conta de R$ 100, somente R$ 44 é gasolina; o restante de R$ 56 é puro imposto. Fazendo uma comparação percentual descobrimos que a caga tributária não é de 56% e sim, de 127%. Essa pequena amostra revela a grande malandragem do sistema informativo das cargas tributárias dos produtos que consumimos. A tática ardilosa da dupla dinâmica Sefaz Receita Federal consiste em juntar produto com imposto e depois fazer uma relação percentual entre os dois, enquanto que nos países desenvolvidos essa relação percentual é de um, separado do outro. A proposta do Senador Randolfe visa exatamente corrigir essa deformação do nosso sistema ao propor que se separe produto da sua respectiva carga tributária.

O Projeto de Lei 990/2019 encerra uma força titânica capaz de promover a verdadeira reforma tributária porque o consumidor passará a exigir racionalidade na tributação indireta. O consumidor ficará possesso de raiva quando descobrir que o videogame é taxado a 257%. Ou então quando souber que perfume paga 376% de impostos. Ou seja, não há justificativa nenhuma para taxações tão insanas. O lado mais sombrio desse modelo extorsivo está na taxação de alimentos que em muitos casos passa dos 100%, coisa absolutamente impensável nos EUA que não tributam alimentos por considerarem um pecado mortal. Já, no Brasil, pode tudo. Mesmo porque, não existe pecado do lado de baixo do equador.   

Quando toda a nação brasileira se insurgir contra o modelo extorsivo de tributação indireta, o poder público será obrigado a migrar para o modelo progressivo. Isto é, a saída para evitar uma guerra civil será, finalmente, exigir que o rico pague imposto. Um brilhante trabalho da professora Maria Helena Zockun (USP) aponta que as rendas mais altas pagam apenas 7% de imposto de renda. Isso é fruto de manobras tecno jurídicas que exploram o propositadamente caótico ambiente legal brasileiro. A causa principal desse modelo distorcido está na isenção dos dividendos, cujos defensores do patronato se apoiam na carga de 34% de IR/CS para justificar o dinheiro limpinho e integral que entra nos bolsos dos acionistas. Ocorre que uma minoria efetivamente paga os 34% porque os regimes do Simples Nacional e do Lucro Presumido arcam com um peso muito menor. E as grandes empresas beneficiárias de incentivos fiscais também não pagam 34%. As empresas do Polo Industrial de Manaus pagam somente metade dessa carga (redução IR 75% SUDAM). É bom lembrar que benefícios fiscais existem no país inteiro; não somente em Manaus.

A verdadeira reforma tributária deve partir da massa populacional e não dos burocratas que venderam suas almas para as corporações de grosso calibre. O movimento do Imposto Único e outras agremiações estão armados até os dentes para garantir que o consumo continue abastecendo quase que totalmente o erário. O problema é que o povão está abrindo os olhos e a confusão dos preços da gasolina vem contribuindo muito para o despertar de consciências anestesiadas por anos de ignorância e exploração. Curta e siga @doutorimposto























segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DISRUPTURA CONTÁBIL



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  21 / 01 / 2020 - A386

Não faz muito tempo, uma contadora me confessou sua preocupação com a dita cuja contabilidade digital, a qual possui ferramentas capazes de automatizar as tarefas do contador e por tal motivo poderia arrebatar os clientes das firmas tradicionais de serviços contábeis. O estabelecimento dessa contadora insiste no modelo de trabalho que concentra tudo no escritório. Eu então disse para a minha colega que já estamos vivendo uma era disruptiva da nossa profissão, uma vez que a tecnologia da informação avança sobre as atividades mais diversas com o propósito de automatizar aquilo que envolve lógica matemática, que é repetitivo, que é volumoso e que pode ser classificado como elemento integrante de qualquer tipo de sistema ou processo. Desse modo, sobra para a criatura humana as prerrogativas vinculadas à criatividade, à análise ou funções de cunho estratégico.

Lamentavelmente, para o pessoal das antigas, aquele contador escriturário morreu. Muitos deles ainda estão por aí, vagando pelas repartições públicas como zumbis desorientados em meio ao furacão de obrigações eletrônicas altamente complexas e indecifráveis. Daí, a razão de vários rebuliços societários ou fechamento de portas dos escritórios tradicionais. Isso acontece quando funcionários egressos desses estabelecimentos, geralmente jovens e antenados, abrem um escritório moderno e trazem consigo os clientes insatisfeitos com o serviço anterior.

A onda do momento é o “escritório sem papel”, que não tem a ver somente com digitalização de documentos – o conceito vai muito além disso. Ferramentas como Nibo, Conta Azul ou Omie conferem um altíssimo nível de eficiência aos processos empresariais com um custo infinitamente menor do que os paquidérmicos ERP. Detalhe importante: As soluções são adequadas ao porte do cliente. Ou seja, o pequeno utiliza um software intuitivo capaz de abastecer sua escrituração fisco/contábil sem necessidade de custos exorbitantes. O médio pode suportar um conjunto maior de ferramentas e até empresas maiores ficam dispensadas dos famosos ERP. A função do contador que inicia um trabalho no novo cliente é identificar as necessidades operacionais e verificar se o software existente está habilitado para atender as demandas apresentadas. Na sequência, é feita a incorporação das ferramentas supramencionadas. Os funcionários do escritório sem papel atuam como provedores de soluções administrativas, contábeis, trabalhistas, societárias, tributárias etc. Suas incumbências estão voltadas para a manutenção e funcionamento das soluções instaladas, uma vez que tudo funciona na nuvem, fazendo com que a empresa esteja inteiramente dentro da firma de contabilidade. O escritório se encarrega de cumprir os acordos firmados no contrato pactuado com o cliente. Nesse ambiente, todos os atores precisam de raciocínio dinâmico e estratégico.

Além da função operacional referente a cumprimento de obrigações principais e acessórias, o contador moderno atua fortemente como planejador tributário e consultor organizacional. Por exemplo, o contador Marcelo iniciou seu trabalho numa grande empresa cujo ERP estava totalmente desconfigurado, apesar dos gastos astronômicos com TI. Ele então conseguiu alinhar todos os processos dentro do TOTVS, alavancando assim a dinâmica operacional da empresa. Além disso, já conseguiu soluções para muitos problemas tributários, dentre os quais, fazer o Perd/Comp de R$ 20 milhões onde já conseguiu homologar R$ 12 milhões. Fora isso, o Marcelo afastou consultorias caríssimas que não geravam resultados esperados, substituindo por pessoas competentes.

O contador Wesley atua como um planejador tributário de alto nível que fornece aos clientes diversos procedimentos normativos capazes de gerar benefícios financeiros substanciais. E tudo com embasamento jurídico ou anuência dos órgãos fazendários. Na realidade, os contadores mais arrojados estão trabalhando com parcerias jurídicas e software houses para oferecer soluções diferenciadas, em face dum ambiente legal cheio de instabilidades geradas pelo poder público.

Pois é. As pequenas empresas não estão fora desse universo disruptivo, significando assim que seus contadores precisam se adaptar rapidamente antes da onda transformadora varrer o modelo anacrônico que já teve a sua importância. Curta e siga @doutorimposto




































TREINAMENTO ICMS básico & substituição tributária

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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

IPTU DO ESTOQUE DE MERCADORIAS



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  24 / 12 / 2019 - A385

Quando a empresa desconta imposto de renda do empregado ou efetua retenções tributárias de um prestador de serviços, ela deve repassar os valores ao erário. Ponto final. O mesmo acontece com o substituto tributário do ICMS que acrescenta o imposto ao total da nota fiscal. Nesses casos, a empresa opera como um simples entreposto (contribuinte de direito); sua função é conectar o Fisco ao “contribuinte de fato”. Os recursos em questão passam ao largo das atividades operacionais e por tal motivo o não recolhimento fica indiscutivelmente caracterizado como crime de apropriação indébita. Assim deveria acontecer com qualquer tipo de tributo indireto, o que reduziria drasticamente a sonegação fiscal.

ICMS, Pis e Cofins, teoricamente, são tributos retidos do comprador e posteriormente repassados ao erário. Teoricamente. Na prática, a coisa toda é muito complicada. Esse trio parada-dura não é retido no momento da venda nem calculado sobre o valor da mercadoria, mas os três são trabalhados como elementos formadores do preço, que é base de tudo. Sobre o preço final se aplica a alíquota do ICMS; também, do Pis e da Cofins, fazendo com que suas cargas efetivas fiquem muito acima daquilo que consta nas respectivas normatizações legais. Acontece que, muito raramente, esse arranjo metodológico é adotado na sua plenitude, porque o mercado impõe uma conduta estabelecida pelos sonegadores. Por exemplo, um grande distribuidor de bebidas manauara faliu porque insistiu na aplicação dessa dita metodologia. Consequentemente, seus preços ficaram muito acima da concorrência, que não fazia a mesma coisa.

Os preços constantes em meio mundo de produtos espalhados por inúmeras empresas não carregam completamente os percentuais de ICMS, Pis e Cofins ditados pela legislação, mas os documentos fiscais atestam legalmente que a retenção foi efetivada, o que contraria a realidade dos fatos. Isso significa que, por exemplo, o percentual de 18% destacado na nota fiscal nem sempre é retirado do bolso do cliente. O problema é que a emissão da nota está amarrada à presunção legal da retenção; uma coisa é indissociável da outra. Com isso, a Sefaz se dá o direito de utilizar a força policial para invadir o estabelecimento, prender o contribuinte e pilhar o seu patrimônio. Para evitar toda essa tragédia grega, o vendedor deve repassar ao Fisco aquilo que não foi retido, fazendo com que os custos fiquem bem acima da receita. Nesse caso, o agente fazendário não resgata um valor retido do comprador e sim, arranca um pedaço do patrimônio da empresa. O ICMS, portanto, deixa de ser um tributo sobre consumo e passa a ser um imposto sobre patrimônio; uma espécie de IPTU do estoque.

O sistema de impostos “por dentro” é um jogo diabólico, onde as empresas são pressionadas, de um lado, pela Sefaz e do outro, pelo mercado. A dupla Sefaz/RFB não dispõe de estrutura mínima suficiente para garantir que os tributos sejam corretamente embutidos nos valores das mercadorias. Mesmo porque, não há como tornar público a formação de preços. Até mesmo grandes distribuidoras se veem obrigadas a fazer promoções agressivas de mercadorias com validade curta, o que desmantela totalmente a idealizada formação de preço. Tais perversidades escarnecedoras de mercado, teoricamente, não acontecem no setor de combustíveis porque a tributação da venda final ocorre na refinaria, obrigando todo mundo a pagar a mesma carga tributária. O regime do ICMS substituição tributária, apesar de polêmico, tem o pendor de uniformizar as condições de concorrência.

Diante dum imbróglio extremamente enroscado no cipoal de normas conflituosas, fica impossível criminalizar o inadimplemento do recolhimento do ICMS declarado. Em face dum suposto inquérito policial, a prova cabal de apropriação indébita não se daria pela simples declaração impressa na nota fiscal e sim, pela comparação dos custos com a venda efetivada.

Vigorou no estado do Acre até 2015 um excepcional sistema de cobrança de ICMS que prevenia distorções de concorrência: Todas as mercadorias ingressadas no território acreano pagavam ICMS substituição tributária, o que deixava o mercado livre para trabalhar sem aporrinhações fiscais estaduais. Tudo ficava perfeito quando Pis Cofins eram monofásicos ou isentos.

O conjunto de fatores aqui descritos deveria provocar um levante do empresariado para acabar com a cobrança dos tributos “por dentro”. Mas não se observa nenhuma reação enérgica que dê uma chacoalhada nos poderes constituídos. Vamos esperar então a lista de prisioneiros. Curta e siga @doutorimposto

































terça-feira, 24 de dezembro de 2019

CRIME X CHAFURDO TRIBUTÁRIO



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  24 / 12 / 2019 - A384

O nosso chafurdo tributário possui uma gênese primordial, que é a seguinte: O rico não quer pagar imposto. Nos países de democracia forte, as instituições são menos suscetíveis a manipulações do poder econômico (o que não ocorre por aqui). Impera nos países membros da OCDE a progressividade tributária. Por outro lado, as instituições públicas brasileiras são pressionadas, achincalhadas, reviradas pelo avesso etc. Tudo é muito frágil no Brasil; o poder econômico manda e desmanda no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, os quais são paus-mandados das eminências pardas que manipulam a legalidade nos bastidores. Todo esse chafurdo, depois de processado, pasteurizado e embalado à vácuo, resulta na nossa ostensiva e perversa regressividade tributária. Pode-se observar claramente nos projetos de reforma tributária em discussão no Legislativo que eles mencionam somente tributos sobre consumo. A PEC45, por exemplo, pretende aumentar o ISS de 5% para 25%. O governo federal queria ressuscitar a CPMF e agora luta pela tributação de transações digitais (que é uma CPMF disfarçada). Ninguém apresenta um projeto de combate à regressividade; em vez disso, os “especialistas” estão buscando o Santo Graal que promova uma mudança de forma que tudo continue como está. Inclusive, as autoridades públicas dizem claramente que o aumento do imposto de renda vai afugentar empresas e investidores ou então que o rico não aceita pagar imposto de renda sobre dividendos. 

Um estudo da Professora Maria Helena Zockun (USP) aponta que os mais altos rendimentos do Brasil são tributados com alíquota efetiva de apenas 7% (IR). Isso acontece pelas deformações normativas da legislação que faz a alegria dos planejadores tributários. 

Pois bem. Já que o rico não paga, é preciso ir atrás dos pobres. É preciso taxar o consumo com pesadíssimas cargas tributárias. Por exemplo: O videogame possui uma carga de 257%; perfume, 376%; vodca, 455% quando o cálculo é “por fora”. Mas, claro, uma carga desse tamanho é mais do que suficiente para incitar uma convulsão social. Daí, que, para evitar uma catástrofe institucional, a dupla Sefaz/RFB resolveu esconder essa brutalidade do consumidor, pela instituição da tributação “por dentro”. Tal mecanismo injeta ICMS, Pis e Cofins na composição do preço da mercadoria. Além de ocultar a carga do consumidor, esse procedimento matemático faz com que o próprio imposto seja base dele mesmo e dos outros dois – ICMS, Pis e Cofins são base do ICMS; ICMS, Pis e Cofins são base do Pis; ICMS, Pis e Cofins são base da Cofins. Para encaroçar mais ainda esse angu, a carga de cada um deles vai muito além da nominal. No regime do Lucro Real, a carga efetiva do ICMS não é 18% e sim 24,74%; o Pis não é 1,65% e sim 2,27%; a Cofins não é 7,6% e sim 10,45%. Nesse jogo de escamoteamento matemático, a carga efetiva total fica 10,21% maior do que a nominal quando se calcula os tributos “por fora”. A metodologia de cálculo “por dentro” mascara a real carga porque a Sefaz/RFB obriga o comerciante a vender imposto como se fosse produto. O preço da etiqueta não distingue uma coisa da outra, e, com isso, a forma que os institutos oficiais identificam a carga é totalmente fraudulenta porque comparam uma parte com o todo. Esses institutos não separam uma coisa da outra antes de fazer uma relação percentual. Esse tipo de malandragem não acontece nos EUA nem na Europa porque tanto o cidadão norte americano quanto o cidadão europeu enxerga uma coisa separada da outra e assim o imposto não é base dele mesmo. É bom lembrar que nesses países desenvolvidos só existe um imposto sobre consumo.

Resumo da ópera: O fisco brasileiro entranhou profundamente o ICMS nas operações da empresa, de modo a tornar o processo de apuração extremamente complexo. Daí, a dificuldade de caracterização de apropriação indébita pela ótica penal. Tal dificuldade não acontece na retenção do ICMS substituição tributária pelo substituto porque o imposto retido é totalmente separado das operações da empresa, não havendo argumento plausível que justifique a inadimplência porque o dinheiro não é dela. Tanto é verdade, que o artigo 390 do RICMSAM aponta “ação criminal cabível” à falta de pagamento. Além do mais, a Sefaz criou uma infinidade de modalidades de ICMS com regras indecifráveis, significando assim que qualquer empresa que tente cumprir vírgula por vírgula da legislação amazonense, simplesmente não vai conseguir porque ninguém é capaz de destrinchar o cipoal normativo. 

Portanto, o empresariado deve se unir e aceitar a criminalização da inadimplência somente se o cálculo do ICMS for “por fora”, tal qual ocorre no IPI e na retenção de ST pelo substituto. Em outras palavras, o Fisco só pode punir depois de saneado o chafurdo normativo hoje existente. Mas, claro, sabemos que a dupla Sefaz/RFB abomina a ideia de tornar público as cargas tributárias dos produtos consumidos pela população. Por isso, estamos num impasse. Curta e siga @doutorimposto



























terça-feira, 3 de dezembro de 2019

MANUTENÇÃO DO ESPÍRITO DESBRAVADOR



Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio  dia  3 / 12 / 2019 - A383

Diversas pessoas aparentam nascer envoltas por uma aura de magia que carregam consigo pra vida toda. Esses indivíduos costumam erguer impérios ou patrimônios consideráveis quase que do nada e num período relativamente pequeno, em face da multiplicidade de realizações. Certos casos são particularmente espantosos e por isso mesmo chegam até a suscitar desconfianças ou maledicências. Tais fenômenos empreendedores são acompanhados de outros eventos curiosos, que se traduz na construção artificiosa da história original, sendo que, muitas vezes, isso se dá de modo atabalhoado porque o sucessor tenta corrigir o “jeitão errado” do pai trabalhar. Ou seja, o filho criado na base do danoninho com nutella se reveste duma pretensa autoridade estratégica porque foi capacitado nas melhores instituições de ensino. Mas o que é notório e recorrente são os diversos relatos de fracassos retumbantes que cercam grandes nomes do mundo empresarial. Tenebrosas dificuldades administrativas perseguem até mesmo o sucessor que adotou desde criancinha o mesmo ritmo de trabalho do pai.

Os comentaristas de plantão podem dizer que o pioneiro construiu seu império numa conjuntura que não mais existe, e que tempos modernos exigem posturas modernas. Pode ser que isso seja verdade, uma vez que certos empreendimentos se expandem vigorosamente no comando da segunda geração de administradores. Isso acontece por meio de audaciosos projetos que objetivam reinventar o negócio via parcerias ou adoção de uma gestão altamente profissionalizada. Obviamente, que tudo deve ser conduzido com prudência e atenção aos indicadores de riscos patrimoniais (não dar um passo maior que a perna). É bom lembrar que o excesso de autoconfiança pode danificar estruturas que depois levam anos para serem reconstruídas. O ímpeto exacerbado do gestor costuma levar a organização para caminhos muito distantes do seu core business. Isso é mais perigoso quando tudo é muito personalizado e centralizado na cabeça duma só pessoa. A possível instabilidade pode então ser neutralizada quando o comandante geral investe fortemente nos profissionais-chave da empresa, de modo a se reproduzir as incumbências de um diretor. Sem esse suporte estratégico, o negócio por inteiro se fragiliza pela eventualidade de perdas de conhecimentos valiosos. Nesse contexto, o maior inimigo é a empáfia, que costuma cobrar o seu preço. Principalmente, quando o chefão prega o mantra de que ninguém é insubstituível. O pior de tudo é que a sensatez acaba se manifestando após o leite ser totalmente derramado.

De qualquer modo, é louvável a disposição de sucessores muito ricos que abraçam o desafio de continuar o trabalho do pai em vez de optar por uma vida sem correria e sem muito estresse. O pioneiro foi para a guerra de peito aberto pela necessidade de sobrevivência, coisa que não é tão urgente na realidade do sucessor. Daí, a razão para se reconhecer os predicados do soldado que luta por opção.

Há de se reconhecer que a nossa conjuntura atual é de fato mais desafiadora, uma vez que práticas comuns no passado não se encaixam num ambiente de extremado controle eletrônico das operações corporativas. O Fisco, por exemplo, conseguiu montar um cerco eficiente de monitoramento nas cadeias de produção/distribuição. Com isso, o famoso “jeitinho” ficou mais difícil até mesmo para gente poderosa. Inclusive, há casos de reengenharias administrativas que nascem de grandes traumas patrimoniais por inobservância de normatizações legais. Quer queira ou não, a única opção sustentável reside nas definições de políticas e de práticas administrativas capazes de assegurar a perenidade da organização. A capacitação de todo o corpo operacional se torna necessária, incluindo o próprio dono, que precisa adquirir habilidades complementares para assim dialogar com a sua equipe de trabalho e com os agentes externos. Daí, que é muito comum observarmos que grandes empresários possuem conhecimentos avançados de tributação, contabilidade, finanças etc. A necessidade faz o sapo pular. Curta e siga @doutorimposto