terça-feira, 23 de junho de 2015

BRASIL, O PAÍS DA PROPAGANDA

compartilhe esse post com seus amigos


Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio dia 23/06/2015 - A215
Artigos publicados

Neste continente, os nossos antepassados doaram ao mundo uma nova nação concebida na liberdade e baseada no princípio de que todos os homens foram criados iguais. Estamos hoje envolvidos em uma grande guerra civil que provará se esta nação ou qualquer outra deste modo concebida pode perdurar. Encontramo-nos, neste momento, num dos grandes campos de batalha desta luta e queremos consagrar uma parte dele à última morada dos que aqui sacrificaram a própria vida pela existência do país. É justo que o façamos, porém, num sentido mais profundo. Não nos compete abençoar ou consagrar este solo. Os heróis, vivos ou mortos, que nele pelejaram, já o santificaram a tal ponto que as nossas fracas forças nada lhe podem acrescentar nem tirar. Mais tarde, o mundo esquecerá o que hoje foi dito aqui. Todavia, jamais poderá olvidar os feitos de que este campo foi teatro. Cabe-nos, a nós, vivos, dedicar-nos à continuação da obra de que os combatentes aqui iniciaram. Compete-nos realizar a sublime tarefa que esses grandes mortos nos legaram, e com crescente espírito de sacrifício levar à vitória a causa que aqui os fez exaltar o derradeiro alento. Cumpre-nos fazer que esses homens não tenham tombado em vão, que, com o auxílio de Deus, a nação assista à renascença da liberdade e que o governo do povo pelo povo não desapareça da face da terra.

Esse belo e magnânimo discurso foi proferido pelo Pai da Nação americana na tarde do dia 19 de novembro de 1863, quatro meses depois da vitória na batalha de Gettysburg, a qual foi decisiva para o resultado da Guerra da Secessão. As palavras de Abraham Lincoln ecoam até os dias de hoje arrebatando corações e mentes mundo afora. Vários homens públicos dos Estados Unidos marcaram seu nome na história pela eloquência e pela grandiosidade dos seus atos, enchendo de orgulho um povo que soube curar suas feridas mais graves e assim conquistar o planeta. Até mesmo o discurso do atual presidente Barack Obama já figura entre os melhores, o qual foi proferido no dia 4 de novembro de 2008, após ter vencido as eleições, onde disse: "E aqui estamos nós, frente a frente com o cinismo e as dúvidas daqueles que nos dizem que não somos capazes, e a quem respondemos com o credo intemporal que representa o espírito de um povo: Sim, somos capazes (yes, we can)."

Enquanto isso, nós, brasileiros, somos órfãos de ídolos e de grandes personagens da nossa história política. Isto é, pessoas capazes de arrebatar os nossos corações, como também de inspirar ações sublimes e grandiosas. Nossos políticos só nos envergonham. Geralmente, suas condutas e seu caráter revelam o que de pior e mais sombrio encontra-se guardado nas profundezas da alma humana. O recente festival de escândalos que saturou os canais midiáticos tem assustado a população pela envergadura e pela metástase cancerígena que tomou de assalto todas as células do poder público – onde ninguém é inocente (ou no mínimo, omisso).

Os nossos políticos substituíram a retórica autoral por peças publicitárias de prateleira. Impressiona o fato de tudo quanto é discurso ser proveniente de uma mesma matriz (artificiosa e cacofônica). E o mais incrível é que ninguém se mostra capaz de criar argumentos novos e confiáveis. A demagogia e a representação teatral ficam ainda mais vexatórias quando o orador insiste na representação de um papel absolutamente contrário ao da sua conduta. A aposta dos marqueteiros (criadores de ídolos de plástico) é ainda na grande massa de desinformados e analfabetos. Daí a razão de nos depararmos com toscas e demagógicas campanhas televisivas, as quais nos causam repúdio, mas que podem atingir em cheio um grande contingente de eleitores desprovidos de senso crítico.

Pois é. Infelizmente, somos o país da propaganda. Não à toa, nossos publicitários são internacionalmente reconhecidos pela inigualável criatividade. Daí que toda essa coisa de conduta e probidade, como também seriedade e honestidade; tudo pode ser desenhado e modelado ao gosto do freguês. Dessa forma, e dependendo do cacife, qualquer um pode conquistar altíssimos postos no universo do poder público. Enquanto isso, a população mais instruída reverencia as figuras históricas de outras nações. Ou seja, importamos ideias e exemplos positivos de fora, já que nada de bom consegue brotar do nosso árido e contaminado ambiente político


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua mensagem será publicada assim que for liberada. Grato.